quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Povo de Deus

Era numa pousada no sopé do Morro do Frade, região serrana de Macaé. Eramos pra mais de 60 dormindo.”Poooovo de Deuusss” era o toque de alvorada, meio zombeteiro, meio nomeador  daquela comunidade de aprendizagem. Queríamos aprender  a aprender sobre o que aprender, para beneficiar pescado - almôndega e quibe de peixe -, para gerar identidade das pescadoras, gerar rendas, dignidade, sentido de vida. Fazer emergir  as mulheres. as Celestes. Era um mutirão de pessoas de barcos, de mercado, de escola, de trabalho do lar, de sabedeus, de governo, de associações, da Universidade, Era uma PAPESCA robusta,  obesa, precocemente grande e intensa. Era 2006. Um furdúncio de camaradagem, de  dividir o pão, de com-pão-nheiros  de viagem. Um povo de Deus que emergiu e fez acontecer em Macaé.

Casa grande queima rede de pescador

Eu estava com a cabeça virada para traz para ver e ouvir um pescador em prantos.  Era 2009,na sede do Parque Estadual de Ilha Grande. Os fiscais do Ibama apreenderam sua rede de pesca artesanal que estava em sua canoa.  Era um ganido que  emergia do peito, uma tristeza profunda, de revolta, daquela que emerge dos dignos. “Atearam fogo em minha rede  apreendida”. Puniram , cercearam o trabalho, roubaram e destruíram o meio de produção artesanal. Covardes , canalhas! Aqueles fiscais do Ibama usaram da mesma “coragem” que possue o misógino em bater ou matar a mulher que o rejeita;  que leva o playboy a atear fogo no indigena que dorme  no ponto de ônibus;  do senhor de escravos que açoitava o negro fugido.
Casa grande e senzala é disto que se trata, entranhado na alma do brasileiro “emotivo” quando pode exercer o poder. É o que sói ocorrer.

terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Era madrugada é um corpo na estrada

O limpador do pára-brisas estava  no seu tac tac. Fundo musical da conversa que Vera e eu vínhamos mantendo desde que saímos de Macaé às 22h. Era nosso mantra que nos embalava, que nutria nosso espírito, intelecto, nossa fé nos seres humanos, nos jovens, nos pescadores. Sistematizávamos em nosso diálogo espiritual, o que seria “ materialidade “ da conexão da Universidade com as populações tradicionais de Macaé.
O tac tac embalava a construção do novo, aquelas nuvens que desenhávamos sem parar, apagando e desenhando com uma energia que parecia se mostrar inesgotável.
Vida plena,  pois  nutríamos o espírito com o polén que retirávamos das flores humanas , masculinas, femininas, jovens,
 Trabalhávamos com a universidade com problemas essenciais: fundamentalmente humanos, indo de um lado  para outro voando em tapetes voadores que inventávamos e não nos espantávamos quando eles alçavam voo.
Nós integrávamos uma alcateia de anjos que fazíamos a PAPESCA , pesquisa ação na cadeia produtiva da pesca artesanal em Macaé,um programa de extensão da UFRJ que  teciamos e viajavamos em nossos tapetes voadores, invasores, com dezena de jovens, ficávamos com as bochechas  vermelhas de alegria e de espanto com nossas potências e generosidades, nossas solidariedades, O tac tac daquela noite voltando pro Rio vislumbramos um corpo em Manilha, uma hora da manhã.  Pé no freio devagar, desviamos, reduzimos a velocidade e avisamos o policial federal . “ Já sabemos, já sabemos, sigam” Seguimos... mais de  uma década fazendo o tapete voar e ver a vida e a morte conviver, sem deixar de sentir o espanto e a emoção.

sábado, 14 de novembro de 2015

Democracia e Terror

Eu estou lendo nas redes sociais  colocarem-se em choque dois tipos de solidariedade a duas catástrofes.  Eu creio ser possível conciliar as manifestações de solidariedade  ao povo francês e às vítimas do terror facista na França e no mundo com a solidariedade ao povo de Mariana, de Minas, do Brasil e do mundo, vítimas do terror socioambiental  da acumulação do capital desumana Eu creio  ser possível pois  acredito na democracia - sem adjetivos - como um Direito Humano Universal.

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

DO "DRAGÃO" AO "RATÃO"

Cinco horas da manhã, Rua Maia   Lacerda, Estácio, RJ,  1977, cercado por muitos homens armados, gritando muito, prenderam-me, jogaram-me para dentro de uma caminhonete "veraneio azul", simbolo dos veículos da repressão militar. Eram utilizadas pelos órgão da repressão da ditadura militar  para sequestar  militantes de resistência ao regime. Encapuzado, deitado, fui levado à sede do DOI-CODI, no quartel da PE , Barão de Mesquita. Em dois dias prenderam a mim e mais 19 companheiros e companheiras. Lá fui submetido a 10 dias de tortura fisica, psìquica e espiritual. Iniciaram o processo "científivo" de demolição humana na sala da "CADEIRA DO DRAGÃO". Era  uma poltrona onde sentei nu, amarrado a ela por correias que imobilizavam meu corpo pelo peito, pernas e braços. O inicio da tortura foi inaugurado por porradas no peito. Seguiram-se choques elétricos através  de fios finíssimos e longos que amarraram no pênis, lóbulos das orelhas, dedos dos pés e mão e por aí firam. Prosseguiram na  sala da "GELADEIA" onde se alternavam sons em enormes  alturas, variando   de agudos  a graves. Ao mesmo tempo variando a temperatura gélidas. Etcoetera e tal. Após os dez dias fomos levados para o DPPS, eu demais  companheiras e  companheiras. Lá fui colocado na cela "RATÃO", 1mx1m e bem alto. Dormi atordoado, enojado, quebrado por dentro. Pois foi neste mesmo "Ratão" que comecei a minha recuperação do quartel do "Dragão", com a carinhosa e solida solidariedae com meu  querido  pessoal de minha organização polìtica. Com muita conversa pela radio corredor, pelas greves de fome para resistir ao retorno das torturas e pela anistia ampla geral e irrestrita. 

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Eu acabei concordando com a minha mãe!

Minha mãe está morta há 30 anos, e não soube, portanto,  que eu acabei por concordar com ela. Foram incontáveis  as nossas  discussões sobre isso, ou seja:
não há qualquer possibilidade da humanidade mudar  para melhor, material e espiritualmente, se nós não nos transformarmos para melhor individualmente.  Eu achava o contrário, primeiro mudar a humanidade e depois os indivíduos. Não é uma questão de certo ou errado. Ê uma questão, agora, pra mim, de convicção.

UAI!.

Peguei o trem na hora certa, vagão certo, assento correto, desci na estação da cidadezinha  marcada no bilhete e vieram  dizer-me que ela esta desativada há décadas?
Tem algo de errado no meu plano de viagem...
Acho que vou ter de revê-lo, uai.

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Dondevimprondevô?

Foto da década de 60, Sagrada Família é o nome dessa igrejinha, Jardim da Saúde, cidade de São Paulo. Era da ordem dos  dominicanos em  meados dos 60. Meu primeiro encontro com uma organização social: o Centro Comunitário de Jovens (CCJ),  laico,  que  propiciou a mim, e aos meus amigos de rua, experimentarmos a co-gestão de conflitos entre uma dezena de grupos de jovens do bairro  - grupos ou gangues  -  que utilizavam o centro  poliesportivo da prefeitura de São Paulo.  Foi meu beabá de cidadania. Fui ter outro contato com a ordem dos dominicanos em 1977, quando estava no presidio Esmeraldino Bandeira em Bangú, Rio. Era um frei que estava na paroquia no município de Socorro,  interior de São Paulo, que confortava a  minha - então  - católica sogra,  dizendo-lhe que éramos socialistas e que lutávamos por um mundo igualitário e  solidário e que  ela poderia  orgulhar-se disso. Começamos a nos corresponder ainda na prisão e depois fomos conhecer o trabalho deles na periferia da zona leste de São Paulo. Foi através dele que conheci a Teologia da Libertação. No meu contato que tive na vida com  dominicanos  gostei do que vi, ouvi,  li e vivi.  

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Um herói no trem de prata

Um  guerrilheiro brasileiro liderou um grupo da resistência francesa para resgatar companheiros presos  num hospital-prisão nazi, em Paris, durante a segunda guerra mundial. Assim o jovem resgata, sem tiros, dentre outros, a companheira da resistência francesa que viria a ser  sua amada para o resto de sua vida. Esta era uma das inúmeras histórias de sua vida, que  Apolônio de Carvalho contava-me no carro-bar do "trem prata" e no carro restaurante, que ligava a Estação Leopoldina do Rio à Estação da Luz de Sampa. Ouvia-as nas inúmeras viagens que fizemos, saindo às 23h e chegando às 8h, numa ou noutra estação. Iamos juntos, os dois, representantes do Rio de Janeiro na primeira coordenação executiva nacional do PT, entre 1979 e 1981. Foi, creio, um dos grandes conselheiros de minha vida. Duro por vezes, poeta na maioria delas. Sim, Apolônio vem de apolíneo

Assista  VALE A PENA SONHAR ! 

domingo, 8 de novembro de 2015

Picapau no mourão

Década de 70, 1971, auge da ditadura, auge das revolução jovem no Brasil e no mundo. Alguns com metralhadora ou revolveres na mão. Outros tomando LSD ou  cigarros de maconha, com jeans, camisetas. Nas estradas com dedos esticados viajavam, jovens cabeludos, seja  por protagonismo, seja  por imitação. Eu de longos cabelos compridos, por imitação, viajava de carona pelo Brasil, usando  calça "tergal", um tecido que não amassava, que era muito próprio para bailes, pois o vinco estava sempre bom, usada junto com  camisa de  botões com  manga curta. Sai certa vez de carona desde o subúrbio de São Paulo até  Belém, sozinho, no tempo em que era tudo terra entre  Anápolis e a capital do Pará.  Uma efeméride esta viagem. Hoje seria como viajar  de carona para a Guiana Francesa. Num dos 45 dias da viagem eu acordei cedinho, na beira de uma estrada em Goiás,  com o som de um pica-pau bicando  o mourão onde eu dormira à noite. Foi nessa viagem que eu me tornei adulto, imaturo ainda, mas adulto.