domingo, 28 de janeiro de 2018

EMOÇÃO NO ARRASTO DE PRAIA EM ITAIPU

          Quatro horas da manhã na praia de Itaipu, mal dava para distinguir quem era quem, mas que havia pescador pra caramba tinha. Era uma canoa antiga do pai do Lula, que ia ganhar o mar, empurrada sobre toras. Estávamos lá também pra observar como estudo de caso sobre o Arrasto de Praia,  vários de Canto de Itaipu que  cursávamos em 2014 "Gestão de Projetos Solidários", turma do curso da PAPESCA-UFRJ. Éramos Vinícius, eu,  Claudinha, Rosilene, Solange, Jorginho, Tripa, Jairo, Dielle, Bárbara, o próprio Lula e sua companheira Amanda..
CANOA DE ARRASTO DO PESCADOR LULA
 A entrada no mar iria lançar uma das pontas da rede que iria fazer uma volta com raio de no máximo 250 metros, ia fazer um contorno ao longo da enseada de Itaipu  e lançar a outra ponta mais a frente na mesma praia, Em movimentos apreendidos lá da sabedoria indígena, os pescadores com  bom humor e tagarelice, revesavam-se na puxada para o  recolhimento da grande rede do lanço à sorte.
   O golpe veio no momento em que eu filmava a entrada do barco , eu via aquilo como algo  epopeico. Foi quando Lula surpreende me e convida: sobe! Eu não esperava, a emoção me tomou o corpo, mente e espírito, foi um nó na  garganta e os olhos marejaram de   imediato. No barco não consegui colher  as imagens de um dos amanheceres mais lindos que presenciei. Presenciei mas não registrei na máquina de filmar, só mesmo no coração, vermelho de tanta paixão.

DOMINGO VERMELHO


No sábado, estava com o coração apertado, Fechado à própria mente, que pretendia, em vão, coordená-lo, Pensando sobre os meus amores na vida. Fluentes, cultivados e cortados. Mas também ele estava aberto de  per se e às interpretações externas. Multiplicando-se as dúvidas, como se fossem poucas. Pagando o preço de quem não se transformou, Teima - ou não gosta - de transformar-se em "gente grande".
 O sangue caminhando menos veloz.  Fazendo fluir um frio incômodo, atroz.Horas a fio, montando cenários, Antigos e futuros. Percorrendo com lupa a trajetória, Identificando percalços Erros e acertos de minha própria história.' Estava bem "gente  grande". Sofrendo como todas sofrem, conscientes ou inconscientes
           A guerra entre os impérios: Da razão e do sentimento. Razão branca, sentimento vermelho; Um opaco, outro cintilante; Um sisudo , outro brejeiro.
        No domingo à tarde, num olhar, num único olhar, Solto, despretensioso, uma seta de luz, Na praça Nossa Senhora da Paz, Vislumbro um carro de cintilante vermelho, Vazio, estacionado. 
         O ritmo de meu coração descompassa Uma máquina  que é gente. Posto que daí a alguns momentos, em minha imaginação, Tinha certeza que ele estaria circulando Com alguém que tenho amor vivo dentro de meu coração vermelho. Sonhar, brincar, amar, contar estória Vida: tinja-me de vermelho, Ensine-me a ser uma "criança grande" !
 
  Rio 23 de abril de 1997

PONTO DE EXCLAMAÇÃO COLORIDO


            Num tampo de cristal plano, espalham-se os conteúdos coloridos de tubos de tinta a óleo, pressionados pelos dedos de um artista plástico invisível. O verde, o azul, o amarelo, o vermelho, matizam-se, germinando outras - mas também entrelaçando-se - sobre um líquido denso, e transparente, depositado sobre o fundo vítreo. Uma luz muito clara, branca, sólida, penetra ao cenário, realçando, cintilando a mágica combinação. A visão é plena, não há outras imagens desequilibradoras. Uma aquarela deslumbrante. Um ponto de exclamação de um longo sonho.

Um sonho enorme, ininterrupto, como se eu houvesse dormido por muitos anos. Um sonho nítido, entrelaçando dezenas de desafios colocados pela vida. Na emergência dos fluxos- sínteses das questões, a mente adormecida, viveu a tudo, sem bloqueios. Apoteoticamente, o enredo perfilado, apresentou uma pintura em seu epílogo. O ser ao emergir fez questão de mostrar- se como uma utopia colorida. 
Os meus olhos abriram-se após permanecerem cerrados por apenas quatro horas. Abriram-se resolutamente, brilhantes, como se quisessem confirmar o porquê de persistirem naquele estado, após a vida e o ser submersos, terem-se apresentado de maneira tão clarividente e tão belas. A verdade e a beleza são reconfortantes. Muito reconfortantes!

Rio de Janeiro, 07 de junho de 1995