quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

EDUARDO MIRANDA - A BUSCA DA UTOPIA EM SI MESMO?

Verdade seja dita, eu já reconheci que minha mãe tinha razão: não há hipótese de transformar a sociedade atual - violenta, desumana, exclusiva para poucos, sem que os seres, os indivíduos que a integram, em sua solidão sejam seres mutantes, autônomos, e que acompanhem e participem da dos processos subterrâneos que oportunizam  uma nova sociedade, justa, fraterna.
Hoje fui apresentado no ciberespaço  a Eduardo Miranda,  filho de classe média alta, que realizou um não à sociedade que lhe trazia incomodo profunda. Isso o levou à mendicância. Virou morador de rua, experimentou a miséria - a que existe para  a opulência  sobreviva. Emerge nele uma arte e uma filosofia, vital e  prática, Ele tem o que dizer e eu tenho o que aprender.

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

MEDO (1994)


        Há tempos o medo se me apresenta como companhia permanente. Do despertar ao adormecer. Há, é fato, momentos em que ele desaparece, às vezes por adormecer comigo, às vezes de maneira inexplicável, e, ainda, às vezes, penso, por superar meu limite em suportá-lo.
      Hoje no entanto estou provocando-o, ele está aqui, dentro de mim, filtrando, buscando censurar esta minha tentativa em descrevê-lo, ou entendê-lo. E eu necessito compreendê-lo. É uma crença que alimento: a conscientização é um antídoto.
     O que seria o medo? O que o faz surgir? O que o faz permanecer? Como suportá-lo? Como sobreviver, apesar dele?
       Passando os olhos nos dicionários, vejo três palavras apresentadas como sinônimos: apreensão, receio, temor. Vejo-as de maneira cética. Não possuem a propriedade de descrever o que sinto. Consigo vê-las descrevendo sentimentos saudáveis em pessoas que abandonaram a onipotência, ou que nunca o possuiu significativamente, alertando-as para a ponderação, para as possibilidades de incerteza, para a natureza humana.
     Nada que descrevesse um estado de paralisia, de imobilidade.  Creio que as frases apresentadas nos mesmos dicionários apresentam   melhor esclarecimento. No primeiro que consulto leio "perturbação resultante da ideia de um perigo real ou aparente". No segundo, "sentimento de inquietação, de apreensão em face de um perigo real ou imaginário". Esta ultima encontra-se mais próxima em dirimir meu ceticismo inicial . Primeiro por expô-lo como um sentimento e não como uma indecifrável perturbação. Perturbação do que? De um sentimento? E isto não seria um outro sentimento? O encarregado desse primeiro verbete nunca, com certeza, visitou as plagas que convivo nos últimos anos. Ele pareceu descrever algo que pudesse perturbar o seu sentimento consolidado e histórico de não-medo. Ele parece mostrar ali sua impossibilidade em compreender que um outro ser humano possa ter o medo como sentimento vigente.
        Em segundo lugar porque eu quero compreender o meu medo como sendo imaginário, e não aparente. Se ele, o medo, me é indecifrável, me conduz ao delírio, sem que nada se apresente palpável que o justifique, me parece evidente que seja fruto de minha imaginação. O meu medo não parece com alguma coisa. Ele me parece mais fruto de uma imaginação formada historicamente nas minhas escolhas em como conduzir minha vida, das circunstâncias familiares, sociais e de saúde que independeram de meu livre arbítrio. Isto sem falar no que me é incompreensível do campo espiritual, pois "se não bruxas, por outro lado sabemos que elas existem"
        O medo medonho que sinto, parece ter se consolidado como companhia indesejável, à medida que fui introspectando e analisando o meu interior. Vasculhando, pesquisando, avaliando, sentindo o sentimento, sentindo minhas limitações, quebrando a imagem que eu imaginava possuir, percebendo em minhas entranhas ser eu um mortal. É tragicamente diferente saber-se mortal e sentir-se mortal.
          A combinação de ver-me com os olhos internos com o sentimento de mortalidade tangível, materializou-se como artefato explosivo. Afinal, quem sou, o que desejo ser, é possível ser o que desenho ser? É um turbilhão, uma pororoca. Não é possível o rio Amazonas conscientizar-se e transformar o trovão aquático, no momento em que se forma, no murmúrio de sua nascente fresca na montanha.
                          Meu medo da pororoca é tamanho, tornando assim raros os meus momentos de calma para crer e ver nisso o enlace do fluido histórico de meu ser com a imensidão do mar pujante de uma nova vida. É lindo, é grandioso, mas eu tenho muito medo.
        o medo do futuro, o temor em me afogar. o desejo de atingi-lo, há a coragem intermitente de nadar resolutamente. O desfecho se me apresenta incerto. Estou cetico nas entranhas, mas movido pelo instinto de sobrevivência.
        Não conseguirei atravessar esta passagem sozinho. Nem quero abraçar-me desesperadamente em exímios nadadores. Necessito do auxílio dos índios, que respeitam, conhecem e viveram o caudaloso rio. Necessito dessa sabedoria e do aconchego primitivo imanente .


Rio de Janeiro, 28 de novembro de 1994


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

ESCREVER: ATO DE SISTEMATIZAR A VIDA

                A justificativa da escrita solitária pode ser encontrada na imagem da busca de construção de uma papiro (panfleto) universal. Imaginar que as letras soltas destas folhas penetrem nos vãos das portas, dos fios telefônicos, na cama quente de uma hipotética amante.

A energia que me fez um agitador de idéias extravagantes, arauto de uma generosa, retilínea e rígida visão de um novo mundo. Creio mesmo ter sido um enérgico menestrel de cantorias em prosa de praças públicas. Aquela energia transformou-se numa tênue capacidade de "esbravejar" por esta caneta. De duas uma: ou minha energia vem se esvaindo ao longo dos anos, ou a energia existente é insuficiente para tentar transformar-me num pensador original e transformador. Quem sabe das duas ... as duas?
Escrever para mim é um ato de liberdade de diálogo. Sou como que um para-raio inteligente que recepta as faíscas elétricas, absorve-as e, desesperadamente, tenta digeri- las e devolvê-las enquanto sinais elétricos de vida.
Não sei se assim o quero. Não sei se é sentimento puro. Creio-me um poeta. Creio-me um observador da miséria humana, É gigantesco meu ceticismo na razão humana. É trágico sentimento para quem racionaliza a possibilidade de evolução da própria razão. É um paradoxo que não me exijo resposta neste texto, posto desejá-lo libertário.
Naveguei nas águas dos que elegem o compromisso com o conhecimento e a sabedoria como base para a libertação individual, social e humana. As águas da ruptura dos dogmas. O caminho que não pugna pela sabedoria orientadora, mas sim pela liberação das energias contidas nas sabedorias individuais, específicas, próprias e originais. A sabedoria como mosaico do pensamento humano, legítima fonte do contínuo recriar do novo, do lançamento de novas bases para as relações de poder entre os seres e as classes.
Daí a necessidade da vigilância sobre a onipotência! 
Sem um "maneira de viver" renovada não teoria-prática renovadora!
A revolução pela qual lutei, de maneira tão generosa, e de que me orgulho tanto, transmudou-se em minha mente. Não é algo passível de ser alinhavado em quarenta ou setenta páginas, ou mesmo setecentas, precedida por uma prestimosa explicação metodológica de maneira sensibilizar o leitor acerca do rigor de quem a concebeu. O que é possível àqueles textos é descrever caminhos para a tomada do poder, como se fosse um Olimpo, uma taça, um troféu.
A revolução utópica que atordoa minha mente, hoje, é algo extremamente estonteante, pois quebra minha estrutura histórica de equilíbrio mental.
A vida propiciou-me observar além das aparências. O vazio e a angustia dos eloqüentes; a sabedoria dos silenciosos divulgada a conta-gotas; a imaturidade dos adultos; a maturidade das crianças. O desamparo afetivo e a carência da coletividade. Descobri a angustia, a tristeza e o sofrimento que estão encobertos atrás dos sorrisos.
Anteriormente me atraia a impetuosidade dos gestos, a convicção das palavras, a rigidez dos hábitos e convicções.
Hoje, me atraem os céticos, os que sabem dizer ter medo, os que indagam, os que admitem serem apenas humanos, abalados com a monumental desumanidade que vivemos. É claro que, também, por traz do que analiso encontra-se uma busca de identidade aos meus valores. Trata-se, em mim, de uma questão objetiva mas também existencial.
A revolução, ou uma revolução, compreendo-a hoje como um processo que deva elevar a cosmovisão material e espiritual de todo ser. Esta deveria ser a base da doutrina.

A visão feminina, e não feminista, do mundo é revolucionária no sentido que penso. Exatamente por terem tricotado historicamente o olhar, o abraço, a maternidade, a preocupação com o ser. A visão masculina, é historicamente patriarcal, é material, é fruto mesmo da gênese do poder erigido para a exploração. O falado, mas ainda não tão decantado, poder burguês, branco e masculino.

É impressionante como ainda vemos os guerreiros (também mulheres) indo em busca de seus sete dragões, de seus continentes a ser descobertos, das propriedades que devem amealhar. Uma cosmovisão que numa trajetória em espiral reproduz a exploração, o egoísmo, a mediocridade do desenvolvimento humano.

É claro que isto não impede o desenvolvimento do intelecto humano, da evolução contínua do homo-sapiens.

Refiro-me é à qualidade deste desenvolvimento. Refiro-me à necessidade do crescimento da dimensão humana em termos materiais de uma sobrevivência digna, da vida em sociedade e do desenvolvimento espiritual.

Estar cético é hoje condição necessária para o desbravamento do novo.


Rio de Janeiro, 29 de abril de 1995

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Sentido da vida (1991)

Respirar folgadamente,
Ondular  diante da tormenta,
Saber impregnar-se dos cheiros e perfumes,
Pulsar de um coração ronronando. 
Deixar-se tomar pelo som de uma música. 
Andar sem ofegar, 
Ver o tempo passar sem se tomar pela pressa.

Não há atraso,
Há momento criador  
Sentir-se parte e  componente fundamental
 Da sincronia da natureza.


Rio de Janeiro, 31 de janeiro de 1991