segunda-feira, 21 de maio de 2018

Uma morada que vou chamar de minha

Enquanto morei em São Paulo eu residi meus 26 anos na Rua Müller Carioca, 34, depois 198, no Jardim da Saúde. Um bairro da periferia feito  para uma infância e adolescência moleca e lambuzada. Lá a casa era dos meus pais. Dá uma livro com 10 volumes pra tentar contar o que lá rolou.
No Rio de Janeiro vim casado com Elsinha cheguei no dia 3 de janeiro de 1976. Entre está data e 1996, em 20 anos eu residi em 13 lugares diferentes. Inaugurei  na Av. Ari Parreiras, em Icarai , Niterói, num apartamento de três quartos estalando de novo emprestado do Zeca, primo da Elsa. Eram os tempos obscuros, de chumbo  e dourados, pra mim. Niterói era um esplêndido e aconchegante lugar pra morar, pra passear,  pra pegar ônibus e barca , pra iniciar a conhecer  o Rio. Depois alugamos na Rua Maya Lacerda apartamento pequenininho, uns 30 m2. Foi lá que fomos presos em julho de 77. Não vale computar  como moradas  aquelas em que fiquei compulsório, mas pra registro foram DOI-CODI, Rua Barão de Mesquita, Tijuca; DPPS, Rua da Relação,  Centro; Esmeraldino Bandeira em Bangu, agora Gericinó; , presídio Frei Caneca, rua de mesmo nome no Estácio, perto da Maya Lacerda, lembra que eu falei lá em cima ?
Mas depois do compulsório fomos morar na rua   Santo Alfredo  - um despenhadeiro com nome de rua - em Santa Tereza com o Miguel de Simoni e a Cristina, seus dois filhos. Inesquecível o Miguel e o caminhar pelas ruelas da Vila Mimosa para pegar ônibus na Presidente Vargas.
De lá fomos albergados pela Marílita na Rua São Clemente, Botafogo,  antes de alugar o apartamento na Rua Barão de Macaúbas em Botafogo. Lá duas  lembranças fortes: uma transcendental,  foi lá que acolhemos a chegada de nossa filha Amanda em 1979, a outra o nosso relacionamento com os amigos no Morro Santa Marta,
Depois fomos pra Rua Humaitá, em frente à Cobal, muito do bom, destaque para o bairro que marcaria o território de Amanda por muitos anos - Acalanto, Sá Pereira, Pedro II. Eu separei de Elsa e fui acolhido por meu amigo Artur na Rua General Dionísio, depois morei numa casa de Vila na rua Humaita.
Tinha uns 35 anos e não parava de mudar....  A companheira de Artur, a Leila, me alugou em Laranjeiras, em frente ao Mercado São José, mas logo depois eu consegui alugar um quarto e sala na Rua Andrade Pertence , Catete. Aqui só vale coisa rápida. Numa noite que não dormi nele incendiou o apartamento de baixo e a moradora morreu. Morreu! No apartamento que eu morava soltaram-se os tacos.
Depois subloquei o apartamento alugado pela amiga Imaculada , na Rua das Laranjeiras, 462. Fui despejado por ordem judicial . Consegui alugar um apartamento na Rua Gago Coutinho, 66, Laranjeiras também,  sala grande e dois quartos.
Entrei na UFRJ como professor assistente , meu salário caiu de 4000 para 800. Não ia dar pra pagar aluguel e manter minha filha e a mim. Enquanto eu pensava o que fazer, sei lá. meu irmão propôs comprar comigo um apartamento , ele daria igual quantia que eu tivesse no FGTS. Como eu tinha  17500, dobrando chegamos a  35000. Compramos em sociedade  onde moro até hoje, Rua das Laranjeiras, 466 , ap. 609.
Passados 22 anos, neste mês vou comprar os 50% que pertencem,  hoje, ao meu irmão e suas filhas.
É um “bumba lelé”, “um eeeeba catapora”, “uma vaca que voa”....”um  trem muito do bão”..
Minha casa teve muitas moradas, mas agora vou ter uma que vai ser minha mesmo.

domingo, 20 de maio de 2018

Me safei!

O revólver estava apontado para a minha cabeça e para a do Celso, ano passado.
 - “Perdeu!”Assim gritou um dos três que saltaram do carro  que freiou e nos cercaram. “É assim que morre de tiro, então ?” , passou uma faísca de pensamento. Gélidos, os ladrões, não tremeram , profissionais. Até mesmo quando viram o singular assalto transformar-se num  arrastão envolvendo outros três carros, uma dezena de assaltados, quando sequestraram um e libertaram duas jovens que saíram em pânico berrando. Ninguém ferido, nenhum tiro. Me safei!
Doutor Andreas em 1959, eu tinha nove anos, operou meu osso frontal, raspou os danos da osteomielite que me infernizava a vida durante nove meses de presença intermitente no hospital,  sempre batendo na ignorância dos médicos sobre o diagnóstico e, claro, sobre o que fazer. Doutor Andreas foi certeiro, sacou a parada e marcou a operação pro dia seguinte.  Quem perdeu foi a meningite, embora fosse a mesma cabeça que o ladrão mirou 58 anos depois. Gélido , Doutor Andreas, trabalhou com a sua turma  durante 9 horas na operação. Até meu pai ele chamou  para assistir. Me safei!
“Não deem porrada na minha testa que vocês me matam”. Berrei para os torturadores na “cadeira do dragão” na Barão de Mesquita, em meio a choques elétricos e socos  em varias partes do corpo. Eu estava com 26 anos. Estava encapuzado, eles continuaram me socando mas não na testa. Não queriam matar- me, por certo. Só passará um ano que tinham assassinado  o operário Manoel Fiel Filho e tão somente dois anos que “suicidaram” Wladimir Hersog.  Gélidos, profissionais,  treinados, suponho que por forças de repressão americanas e inglesas. Me safei!
Acredita que com 38 anos fui operado novamente da ostiomilite, aquela?  No mesmo osso  frontal? 29 anos depois, operado por um discípulo do Doutor Andreas? É mole?  Anestesia local, eu lúcido, conversando, ele  preciso,  gélido, profissional. Parecia uma obturação num dente,  mas igualmente raspou  o osso frontal e novamente  evitou-se a meningite. Me safei!
Reclamar da vida é até pecado, né. Fazer o que com ela é que ficou hipervalorizado.... acho eu!

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Vila Carioca

Estou há 42 anos no Rio de Janeiro e neste  mês de maio fui visitar o meu xodó,  tia Vita, em São Paulo. Ela mora com minha prima Idenise  na Vila Carioca, um bairro ao lado do do Ipiranga, onde o Dom Pedro gritou.
Na década de 50 e 60, a Vila Carioca,  ora estava ao ar livre, ora estava submersa pelo rio que subia quando chovia. A pororoca levava na correnteza, junto,  o esgoto  que corria pelas valetas, a céu aberto,  na estiagem. Eu caí varias vezes naquelas valetas com meu primo Zé.  Ele morreu há pouco tempo, de repente,  como ele queria.
Tia Vita é meu pai Dodô versão mulher. Pois não é? Ela é a caçulinha de quatro irmãos. Os três já morreram. Ela, como meu pai, sabe e gosta de viver.
Ela está, acho, com 89 anos, diabética, e teve que amputar uma perna - do joelho pra baixo - por problemas circulatórios. Cadeira de rodas direto. Antes disso, já viúva, estava sempre na atividade, jogando bingo - sua irmã   Nena, a segunda, também gostava -,  dançava nas vespertinas, viajava. Era o clube da terceira idade. Dava gosto ouvir ela contar as “peripécias”
O que me cativa e me dá muita saudades dela é o sorriso e o bom humor, temperado com mau humor siciliano. A maioria não vai entender, fazer o que ?
Ela na visita estava de blusa vermelha de tecido brilhante, com brincos e com sorriso permanente pregado no rosto enrugado. Uma pintura!
 - foi a Idenise que me botou os “ brinco”, com o  sotaque “italiano” insólito, brejeiro, aquele do Brás ou da Moóca, meu....
- me come mais, caramba, você não tá comendo nada,  esse pão  da Visconti vem da fábrica, né  Idenise.? Tá uma “ dilicia”
Visitando  a tia Vita eu também visitei  meu pai Dodô!

quinta-feira, 17 de maio de 2018

Compaixão

Meus olhos  marejaram nesta quinta feira de manhã. Emergiu na consciência  que  a compaixão - mais do que o perdão - por mim mesmo - deveria encontrar as portas abertas em meu coração. Iluminou-se o mapa de minha vida  e apareçeram inéditas trilhas para minha caminhada . Um gozo!

domingo, 28 de janeiro de 2018

EMOÇÃO NO ARRASTO DE PRAIA EM ITAIPU

          Quatro horas da manhã na praia de Itaipu, mal dava para distinguir quem era quem, mas que havia pescador pra caramba tinha. Era uma canoa antiga do pai do Lula, que ia ganhar o mar, empurrada sobre toras. Estávamos lá também pra observar como estudo de caso sobre o Arrasto de Praia,  vários de Canto de Itaipu que  cursávamos em 2014 "Gestão de Projetos Solidários", turma do curso da PAPESCA-UFRJ. Éramos Vinícius, eu,  Claudinha, Rosilene, Solange, Jorginho, Tripa, Jairo, Dielle, Bárbara, o próprio Lula e sua companheira Amanda..
CANOA DE ARRASTO DO PESCADOR LULA
 A entrada no mar iria lançar uma das pontas da rede que iria fazer uma volta com raio de no máximo 250 metros, ia fazer um contorno ao longo da enseada de Itaipu  e lançar a outra ponta mais a frente na mesma praia, Em movimentos apreendidos lá da sabedoria indígena, os pescadores com  bom humor e tagarelice, revesavam-se na puxada para o  recolhimento da grande rede do lanço à sorte.
   O golpe veio no momento em que eu filmava a entrada do barco , eu via aquilo como algo  epopeico. Foi quando Lula surpreende me e convida: sobe! Eu não esperava, a emoção me tomou o corpo, mente e espírito, foi um nó na  garganta e os olhos marejaram de   imediato. No barco não consegui colher  as imagens de um dos amanheceres mais lindos que presenciei. Presenciei mas não registrei na máquina de filmar, só mesmo no coração, vermelho de tanta paixão.

DOMINGO VERMELHO


No sábado, estava com o coração apertado, Fechado à própria mente, que pretendia, em vão, coordená-lo, Pensando sobre os meus amores na vida. Fluentes, cultivados e cortados. Mas também ele estava aberto de  per se e às interpretações externas. Multiplicando-se as dúvidas, como se fossem poucas. Pagando o preço de quem não se transformou, Teima - ou não gosta - de transformar-se em "gente grande".
 O sangue caminhando menos veloz.  Fazendo fluir um frio incômodo, atroz.Horas a fio, montando cenários, Antigos e futuros. Percorrendo com lupa a trajetória, Identificando percalços Erros e acertos de minha própria história.' Estava bem "gente  grande". Sofrendo como todas sofrem, conscientes ou inconscientes
           A guerra entre os impérios: Da razão e do sentimento. Razão branca, sentimento vermelho; Um opaco, outro cintilante; Um sisudo , outro brejeiro.
        No domingo à tarde, num olhar, num único olhar, Solto, despretensioso, uma seta de luz, Na praça Nossa Senhora da Paz, Vislumbro um carro de cintilante vermelho, Vazio, estacionado. 
         O ritmo de meu coração descompassa Uma máquina  que é gente. Posto que daí a alguns momentos, em minha imaginação, Tinha certeza que ele estaria circulando Com alguém que tenho amor vivo dentro de meu coração vermelho. Sonhar, brincar, amar, contar estória Vida: tinja-me de vermelho, Ensine-me a ser uma "criança grande" !
 
  Rio 23 de abril de 1997

PONTO DE EXCLAMAÇÃO COLORIDO


            Num tampo de cristal plano, espalham-se os conteúdos coloridos de tubos de tinta a óleo, pressionados pelos dedos de um artista plástico invisível. O verde, o azul, o amarelo, o vermelho, matizam-se, germinando outras - mas também entrelaçando-se - sobre um líquido denso, e transparente, depositado sobre o fundo vítreo. Uma luz muito clara, branca, sólida, penetra ao cenário, realçando, cintilando a mágica combinação. A visão é plena, não há outras imagens desequilibradoras. Uma aquarela deslumbrante. Um ponto de exclamação de um longo sonho.

Um sonho enorme, ininterrupto, como se eu houvesse dormido por muitos anos. Um sonho nítido, entrelaçando dezenas de desafios colocados pela vida. Na emergência dos fluxos- sínteses das questões, a mente adormecida, viveu a tudo, sem bloqueios. Apoteoticamente, o enredo perfilado, apresentou uma pintura em seu epílogo. O ser ao emergir fez questão de mostrar- se como uma utopia colorida. 
Os meus olhos abriram-se após permanecerem cerrados por apenas quatro horas. Abriram-se resolutamente, brilhantes, como se quisessem confirmar o porquê de persistirem naquele estado, após a vida e o ser submersos, terem-se apresentado de maneira tão clarividente e tão belas. A verdade e a beleza são reconfortantes. Muito reconfortantes!

Rio de Janeiro, 07 de junho de 1995